Contratado como uma vitória do elenco directivo de Michel Grispos no defeso, após superar as declaradas concorrências do Costa do Sol, Ferroviário de Maputo e Maxaquene, Binó está há quatro meses sem marcar e já começaram a surgir várias interpretações sobre o facto.
A primeira e última vez que Binó marcou ao serviço do Desportivo foi a 21 de Janeiro passado, dando a reviravolta de 2-1 em jogo da primeira mão da Super-Taça diante da sua antiga equipa.
De lá para cá o jogador tem passado em branco, razão para a entrevista que se segue com o treinador Uzaras Mahomed, feita hoje, sexta-feira, no dia em que foi divulgada a convocatória para o jogo diante do Ferroviário de Nampula, para a oitava jornada do Moçambola-2007 e em que Binó não consta devido a opção técnica.
O que é que se passa com Binó que não marca há quatro meses?
O caso de Binó é realmente difícil de entender. É um jogador que trabalha muito e no limite, mas infelizmente os níveis de finalização são muito débeis. Temos feito um trabalho específico com ele, temos trabalho bastante com o jogador, inclusive a nível mental, mas infelizmente o Binó não está a encontrar-se consigo mesmo. Está a passar por uma fase difícil e quero garantir, desde já, que temo-nos disponibilizado para o ajudar até do ponto de vista psicológico no sentido de lhe ajudar a atravessar esta má fase por que está a lhe apoquentar. É simplesmente isto o que posso dizer porque Binó é um jogador com potencial, tem um bom físico para um ponta-de-lança, trabalha e dedica-se muito, mas mesmo nos treinos tem muitas dificuldades de finalizar. É uma má fase que está a atravessar e que precisa da ajuda de nós todos. E é isso que temos estado a fazer aqui nos treinos e no dia-a-dia, tentando falar e trabalhar com ele nos aspectos em que tem sido menos forte de forma a que o possamos ter nas próximas jornadas nas condições em que foi contratado para ajudar o clube a marcar golos e, consequentemente, ganhar os jogos.
Entende-se que o problema de Binó está na sua movimentação como avançado, a forma como deve ser os momentos da equipa, o seu posicionamento de forma a aparecer no momento certo como um matador. Concorda que quando o jogador denota essas dificuldades deve-se colocar pressão sobre o treinador porque é quem trabalha com o jogador nos treinos e prepara-o para os jogos?
Eu não penso dessa forma porque se os outros 22 a 24 jogadores estão dentro desses movimentos não será por causa de um jogador que se vai colocar em causa o treinador. Se o futebol fosse essa lógica, então não haveria nenhum treinador para uma equipa de futebol. A gente viu o Derlei no Benfica de Portugal que só marcou um golo na última jornada do campeonato, mas isso não significa que enquanto não marcava o Fernando Santos não estava a fazer nada, mas o Benfica esteve em todas as frentes e para conquistar tudo. Agora, o que se deve entender é que em 2006 o Desportivo ganhou tudo sem o Binó, pelo que é ele que deve-se adaptar aos movimentos da equipa e não o treinador que deve arranjar formas para o jogador se encaixar na equipa. O Binó é quem deve-se encaixar na forma como o Desportivo joga. O Desportivo é um todo e não vai mudar o seu fio de jogo para adaptar o jogo de Binó.
Especificamente como descreve a sua forma de jogar?
O Binó vinha habituado a ser o organizador do jogo do Têxtil do Púnguè, com os restantes colegas a jogarem para ele em profundidade, mas eu não vou mudar o estilo do jogo do Desportivo porque contratamo-lhe. O Binó foi contratado como um matador e ele tem que se encaixar no Desportivo, o que, inclusive, tem acontecido, mas não está a marcar golos. E se ele não marca golos não será o treinador que o vai fazer na sua conta.
A pressão sobre o treinador é no sentido de que é da sua competência trabalhar com o jogador nos treinos de forma a saber quando e em que circunstâncias deve aparecer em determinado local para finalizar. Concorda que se isso não acontece o treinador é responsabilizado no que o Binó faz ou não faz?
O Binó aparece em muitas ocasiões para atirar ao alvo. Infelizmente é, neste momento, o jogador do Desportivo que mais desperdiça oportunidades de golo. Não concordo que ele não aparece na zona do tiro. Veja-se que todas as situações que o Desportivo desperdiça é o Binó quem as falha.
Então o que é se passa com ele?
É um problema dele como jogador. Está a passar por uma fase crítica. Isso acontece com os grandes jogador. Veja-se o caso recente que em Portugal afectou o Liedson, do Sporting, que esteve 10 jogos sem marcar e mesmo assim não houve condenações. Esperaram e fizeram um trabalho com o Liedson no sentido dele começar a marcar golos. O Binó quando começar a marcar golos vai ganhar confiança e será uma sequência de sucesso. Cá entre nós temos o caso de Maurício que ficou tanto tempo sem marcar. Se o Desportivo não estivesse a jogar para o Binó ele mal apareceria na zona de concretização. Ele deve deixar de ser perdulário. Nos jogos que o Desportivo empatou, o Binó foi o que mais golos desperdiçou os golos que precisávamos para ganhar. Ele não estás a atravessar um bom momento e isso não tem nada a ver com a movimentação da equipa. Se assim fosse ele não apareceria na zona de finalização. A equipa do Desportivo joga e serve o Binó de bandeja, mas ele falha, por vezes, inclusive, com a baliza escancarada.
Mas se ele falha ou é uma questão de gesto técnico, também pode-se fazer nos treinos?
Na alta-competição não é para se ensinar os jogadores a jogar. O Desportivo contratou o Binó a preço de Ouro e ele deve mostrar uma maior valia. Ele tem que mostrar que é uma maior valia e justifique porquê foi contratado. Nos seniores não se ensina a chutar a bola. O treinador sénior e de alta-competição está só para harmonizar os movimentos do grupo. Se os outros marcam porquê é que Binó não marca. Ele deve-se concentrar. Deve buscar o talento dele e finalizar.
Equaciona a possibilidade de na reabertura do mercado dispensar o jogador?
Neste momento não ponho essa possibilidade, mas se tiver que haver esse reajusto teria que conversar com a Direcção do clube porque penso que o Binó saiu muito caro ao Desportivo. Por essa razão não podemos dispensá-lo somente porque o treinador assim o entende. Teria que haver uma conversa com a Direcção do clube. No entanto, penso que ainda não chegamos a esse extremo de equacionar a saída dele na reabertura do mercado.